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José Maria Neves:

Música contemporânea e educação artística

Perspectivas pedagógicas no ano de 1974

Em janeiro passado, participando do Congresso de Educação Artística de São Paulo, fizemos uma comunicação sobre este tema, tendo ocasião de discutir com muitos professores sobre as relações possíveis e necessárias entre estas duas idéias. Um ano antes, no Congreso de Educação Musical da Associação de Educação Musical do Uruguai, tinhamos ministrado um curso sobre este mismo assunto, ocasião em que traçamos, em linhas mais que gerais, os caminhos da Educação Musical no Brasil, que coincidiam estranhamente com o que ocorreu em muitos outros países da América Latina. Para estender ainda mais o debate sobre este problema, oferecemos aqui uma síntese daquilo que foi exposto no Congresso Uruguaio e no de São Paulo.

A Educação Musical atual já superou há muito algumas das idéias que a caracterizavam no passado próximo, quando a música, mais que qualquer outra disciplina do currículo das escolas, servia aos interesses de uma certa política educacional (e não só educacional). A "vivência musical" de então, que se realizava através do canto orfeônico e seu repertório, dá lugar, pouco a pouco, a uma atividade de cunho mais culturalista, que foi chamada de "apreciação musical", na verdade uma outra forma - mais amadorística - de abordar a história da música ("estória", quase sempre). Parece que os próprios professores, um poco desiludidos com os resultados da prática do canto orfeônico, julgaram encontrar a "única saída", certamente mais útil quando bem abordada, que as intermináveis "aulas de canto" e de teoria musical (que se restringia ao aprendizado dos símbolos, raramente utilizados). O desaparecimento do canto orfeônico coincide com o aparecimento dos coros escolares encontrados hoje e que seguem linha diversa daquele, pelo menos em termos de qualidade final do produto musical.

A prática da "apreciação musical", entretanto, evoluindo, não encontrou o seu caminho e não deu solução aos problemas sempre colocados pelos professores e pelos especialistas: os diferentes períodos estudados eram elementos justapostos sem nenhuma ligação essencial. Isto porque os professores se preocupavam mais em fazer a "história da música" do que em mostrar a "evolução da música", para usar a feliz expressão do Conselheiro Walnir Chagas na Indicaçã Nº 36 do CFE.

Na verdade, o estudo da evolução, para não cair na velha concepção de história como ciência do passado, deverá ter um ponto de referência firme e bem situado: o presente. Deste modo, seria normal que a história da música ou a apreciação musical caminhassem rápida e diretamente para as manifestações musicais de nossa época. Todos estariam conscientes, então, de que, independentemente do valor estético das obras compostas nos diferentes períodos de sua evolução, existe uma "linguagem musical" que se transforma sem cessar, assumindo feições características em cada época. Daí estaria eliminado o perigo de se estabelecer um sistema absoluto de julgamento qualitativo, nefasto em todos os sentidos. Parece óbvio que não se pode julgar, por exemplo, a qualidade de uma obra clássica a partir do sistema (código e linguagem) de composição da Idade Média, assim como não se poderia exigir de uma obra composta hoje respeito às normas de composição do início do século (que correspondiam - talvez - às necessidades expressivas do homem daquele tempo).

Não cremos que haja falta de interesse do professor pela música de hoje, mas que, se ele não chega até ela quando vive experiências musicais com seus alunos, isto corresponde mais a um vício do sistema. A formação do professor é toda voltada para o passado, além de nada ter de criativo. Ora, o professor de educação artística é chamado, hoje, a desempenhar uma missão que exige dele elementos que não lhe foram dados e que ele deverá procurar por iniciativa própria. E, se podemos observar lacunas no que se refere à formação de cunho predominantemente intelectual, como a observação e a análise da evolução das manifestações artísticas paralela à evolução do próprio homem, descobrimos total inexistência de atividades de caráter mais vivencial, com a ignorância de que a música poderá ser apenas (¡) mais uma linguagem à disposição de todos nós e o que se espera de nós, criando através de sons, é a trasmissão do nosso "recado" e não a imitação mais ou menos bem sucedida de fórmulas do passado.

Há um enorme campo aberto para a nossa imaginação e nós só poderemos tomar posse dele quando descobrirmos a linguagem do nosso tempo. Falamos, evidentemente, no pleno desenvolvimento de nossa potencialidade criadora. Bloqueados como estamos por um ensino dogmático e repressivo, poderemos ter, entretanto, algumas dificuldades em descobrir o nosso caminho. O conhecimento das tendências dominantes da música contemporânea (falamos da música do século XX, em geral) poderá, então, oferecer sugestões que serão pontos de partida para nossa experiência pessoal. Poderíamos citar algumas destas tendências.

O século XX musical se caracteriza pela redescoberta do som, tomado como matéria-prima da música, e que pode ser manipulado livremente pelo "compositor" (e queremos desde já afastar qualquer connotação mistificante e elitizante deste termo; compositor é, para nós, aquele que usa o som como seu meio de expressão). Este redescoberta do som, individual ou em blocos, feita através da manipulação de qualquer fonte produtora e de uma reeducação auditiva será, inicialmente, uma espécie de jogo, pois não terá sido estabelecido ainda o código de estruturação que transformará a experiência desconexa de sons em Música. Lembramos a necessidade de se devolver à atividade musical uma de suas características fundamentais: o seu caráter lúdico (não é sem razão que o termo usado para definir a atividade musical é, em muitas linguas, "jogar" e "brincar"). Esta experiência musical de contato direto com o som e o jogo com todas as suas possibilidades, que já terá sido realizada por muitos de nós, é a base de algumas das tendências principais da música atual, tendo sido praticada por compositores da envergadura de Edgar Varèse, pelo genial John Cage e estando na origem da técnica da "música concreta".

A música contemporânea oferece muitos outros recursos que poderão ser explorados pelo professor. A técnica "aleatória", por exemplo, permitirá interessantes composicões sonoras, possibilitando a criação de formas as mais diversas e levando à elaboração de uma nova grafia que simbolize de modo claro e direto o resultado sonoro esperado ou conseguido. Temos aqui, então, ao lado da experiência sonora pura, a busca de novas maneiras de organizar o material empregado (organização formal) e a pesquisa criativa de uma simbologia gráfica própria (que poderá resultar em elementos visuais que quase independem do fim a que se destinam). Vale a pena lembrar que muitas das músicas ouvidas pelo jovem de hoje (que condicionam o seu vocabulário musical) correspondem a esta tendência, tanto pela pesquisa de som quanto pela organização global da composição. A abordagem deste tipo de música exige uma grande disponibilidade e uma total falta de preconceitos, sendo o ouvinte quase possuído por ela, sendo levado a viver cada um de seus elementos. As novas concepcões de organização e seqüencia dos grupos acordais, que marcam tanto a música erudita como a popular, abrem também novos caminhos para o professor, que se liberta dos esquemas tradicionais já gastos.

Merecem especial destaque as proposições da música eletroacústica. Apesar do nome pomposo, trata-se de uma técnica simples e sempre eficaz, que pressupõe, sim, instalações especiais e maquinaria custosa, mas que, com uma boa dose de imaginação, pode ser simplificada e adaptada aos recursos disponíveis. Na inexistência de um estúdio apenas honesto,pode-se compor usando pequenos gravadores (temos exemplos de experiências realizadas por crianças de 5 anos de idade que manipulam com toda segurança pequenos gravadores, realizando, inclusive, "obras coletivas"); pode-se descobrir sons eletrônicos manipulando receptores de rádio em faixas de freqüência especiais ou ainda usando o recurso da microfonia; pode-se descobrir maneiras engenhosas de se justapor os sons, sem o emprego da técnica de colagem.

Vale a pena lembrar também que as experiências mais recentes em composição musical coincidem maravilhosamente com uma das proposições da educação artística - a integração. São obras que usam o som como elemento essencial, mas não exclusivo. Vemos então que a necessidade de integração dos diferentes componentes das diferentes manifestações artísticas em uma obra única foi antes pensada pelos artistas criadores e tem origens mais afastadas no tempo do que podemos imaginar. Compositores jovens têm feito com freqüência obras que exigem um certo contexto ambiental (música para ser tocada à beira-mar, por exemplo) ou obras que por incluírem necessariamente uma certa composição espacial, gestos ou movimentos, não existem se reduzidas ao único aspecto sonoro (esta espécie de música é freqüentemente chamada de "teatro musical").

Nossas idéias de criação artística integrada poderão, a partir daí, ter um novo impulso. Conhecemos experiências altamente positivas feitas a partir de uma idéia extraída do folclore (recriação de uma dança dramática, por exemplo), de textos dramáticos do grupo ou de outras manifestações artísticas. Nelas, todos os elementos são planejados e realizados pelos componentes do grupo, resultando em obras que incluem aspectos visuais, cênicos e musicais.

Concluindo, julgamos importantíssimo que o professor viva, ele mesmo, estas experiências criativas, para poder orientar seus alunos. Neste momento, o professor não é mais alguém que transmite conhecimentos, mas que busca, com os alunos, uma nova forma de expressão. Não cabe ao professor, tampouco, observar e julgar o resultado das experiências do grupo, pous não há ainda (felizmente) critérios absolutos de julgamento. Vivendo simplesmente cada atividade proposta, o professor só terá a lucrar, pois, em termos de som e de disponibilidade para criação e para a expressão simples e descontraída, nossos alunos têm muito a nos ensinar.

© 1974, José Maria Neves

Em: Educação Musical. Revista da Sociedade Brasileira de Educação Musical, Nº 1, Rio de Janeiro, Julho de 1974.

 

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